sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Excerto de O Amor Esquece de Começar



Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes.

Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. Só se dá um tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo.

Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não está vivo para dar tempo. Deveria dar distância; tempo, não. Tempo se consome, acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo.
Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola. Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes. Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo. Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo.

Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. Dar um tempo é tirar o tempo.

Dar um tempo é fingido. Melhor a clareza do que os modos.

Dar um tempo é covardia, é para quem não tem coragem de se despedir.

Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus.

Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.

Resumir a relação a um ato mecânico dói. Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. Espera-se algo que escape do lugar-comum. Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste.

Não se pode dar um tempo, não existe mais convergência de tempo entre os dois.
Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência.

Ora, não há maior violência do que dar um tempo. É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. É compatível em maldade com "quero continuar sendo seu amigo".

O que se adia não será cumprido depois.

Fabrício Carpinejar

Um comentário:

Cristiane Marino disse...

Muito bonito o texto que você escolheu. Gosto demais do Carpinejar, principalmente das poesias.
bjs e ótimo final de semana