quarta-feira, 19 de novembro de 2008

NHA CODÊ

Tiraram o lume dos teus olhos

e fizeram braseiro

para aquecer a noite fria;

noite de qualquer dia.

Roubaram o teu riso

e encheram de gargalhadas

de luz e de música

as suas reuniões frustradas.

Da tua pele fizeram tambor

para nos ajuntar no terreiro!

Dondê nha Codê?

Não

não mataram o meu filho

que eu sei que o meu filho não morre.


(Se choro

são saudades de nha Codê...)


Nha Codê vive

na evocção de um mundo distante

no riso e no choro das ervas rasteiras

na solidão dos campos

nas pândegas de marinheiros

na vida que nasce e morre

em cada dia que passa!...

E em mim

essa saudade de nha Codê!


(in "Caminho longe", 1962, Terêncio Anahory, Cabo Verde)

Pensamentos de Ricardo Reis, segundo Saramago

"Chove lá fora, no vasto mundo, com tão denso rumor é impossível que, a esta mesma hora não esteja a chover sobre a terra inteira, vai o globo murmurando águas pelo espaço, como pião zumbidor, E o escuro ruído da chuva é constante em meu pensamento, meu ser é a invisível curva traçada pelo som do vento, que sopra desaforado, cavalo sem freio e à solta, de invisíveis cascos que batem por essas portas e janelas, enquanto dentro deste quarto, onde apenas oscilam, de leve, os transparentes, um homem rodeado de escuros e altos móveis escreve uma carta, compondo e adequando o seu relato para que o absurdo consiga parecer lógico, a incoerência rectidão perfeita, a fraqueza força, a humilhação dignidade, o temor desassombro, que tanto vale o que fomos como o que desejaríamos ter sido, assim o tivéssemos nós ousado quando fomos como que desejaríamos ter sido, assim o tivéssemo nós ousado quando fomos chamados a contas, sabê-lo já é metade do caminho, basta que nos lembremos disto e não nos faltem as forças quando for preciso andar outra metade"


Extraído de O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Pag. 197.

sábado, 15 de novembro de 2008

CONVITE

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

EU TE AMO...NÃO DIZ TUDO!


Você sabe que é amado(a) porque lhe disseram isso?

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,

Que zela pela sua felicidade,

Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,

Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas,

E que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás,

É ver como ele(a) fica triste quando você está triste,

E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

Sente-se amado aquele que não vê transformada a mágoa em munição na hora da discussão.

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.

Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é,

Sem inventar um personagem para a relação,

Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;

Quem não levanta a voz, mas fala;

Quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!



Arnaldo Jabor

sábado, 8 de novembro de 2008

Não entender


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas nao entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter a loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."


LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a Viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana - A Cor do Invisível




Com Licença Poética

Quando nasci um anjo esbelto

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado para mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza, e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto, escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens,

fundo reinos — dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição para homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adélia Prado