segunda-feira, 15 de abril de 2013

Passando dos cinquenta


Meu pescoço se enruga.
Imagino que seja
de mover a cabeça 
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.

Marina Colasanti 


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eu Quero Ser Feliz Agora


Se alguém disser pra você não cantar
Deixar seu sonho ali pra uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz agora (2X)

Se alguém vier com papo perigoso de dizer
que é preciso paciência pra viver
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada,
você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferre,
e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia,
que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela...

Eu quero ser feliz agora (2X)














segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Desolation



Now mind is clear
as a cloudless sky.
Time then to make a 
home in wilderness.

What have I done but
wander with my eyes
in the trees? So I
wild build: wife,
family, and seek
for neighbors.

Or I
perish of lonesomeness
or want of food or
lightining or the bear
(must tame the hart
and wear the bear).

And maybe make an image
of my wandering, a little
image - shrine by the
roadside to signify
to traveler that I live
here in the wilderness
awake and at home.


Allen Ginsberg

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Soneto de Abril


Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo, como um pranto
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas: 

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

Lêdo Ivo

sexta-feira, 22 de março de 2013

O hóspede despercebido


Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães, meus pais
me chamarem de volta para dentro, 
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim, 
algo, alguém, mil pedaços, 
meio início, meio a meio, sem fim.

Paulo Leminski, do livro Distraídos Venceremos.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Mrs. Dalloway


"Quando a gente é feliz, dissera ela a Elizabeth, tem uma reserva, de que lança mão, ao passo que ela era uma roda sem pneu (gostava de tais metáforas) sacudida a cada acidente; dissera-o depois da lição, de pé junto à lareira, com o seu pacote de livros, a sua "mochila", como lhe chamava, isso numa terça-feira de manhã, depois de terminada a lição. "

Trecho de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

segunda-feira, 4 de março de 2013

O Corvo



Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava
Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais
E já quase adormecia, percebi que alguém batia
Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.
Disse a mim: "É um visitante que ora bate em meus portais´-
É só isto, e nada mais."
Ah! tão claro que eu me lembro! Era um frio e atroz dezembro
E as chamas no chão, morrendo, davam sombras fantasmais,
E eu sonhava logo o alvor e pra acabar com a minha dor
Lia em vão, lembrando o amor desta de dons angelicais
A qual chamam Leonora as legiões angelicais,
Mas que aqui não chamam mais.
E um sussurro triste e langue nas cortinas cor de sangue
Assustou-me com tremores nunca vistos tão reais,
E ao meu peito que batia eu mesmo em pé me repetia:
"É somente, em noite fria, um visitante aos meus portais
Que, tardio, pede entrada assim batendo aos meus portais.
É só isto, e nada mais.
Neste instante a minha alma fez-se forte e ganhou calma
E "Senhor" disse, ou "Senhora, perdoai se me aguardais,
Que eu já ia adormecendo quando viestes cá batendo,
Tão de leve assim fazendo, assim fazendo em meus portais
Que eu pensei que não ouvira" - e abri bem largo os meus portais: -
Treva intensa, e nada mais.
Longamente a noite olhei e estarrecido me encontrei,
E assustado, tive sonhos que ninguém sonhou iguais,
Mas total era o deserto e ser nenhum havia perto
Quando um nome, único e certo, sussurrei entre meus ais -
- "Leonora" - esta palavra - e o eco a repôs entre meus ais.
E isto é tudo, e nada mais.

Edgar Allan Poe