sábado, 25 de julho de 2009

REFLEXÃO Nº 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Murilo Mendes

segunda-feira, 20 de julho de 2009

INCONFESSO DESEJO

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta coragem
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatro ventos
As palavras que brotam
Você é minha inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 11 de julho de 2009

PICASSO


Picasso


Desde pequeno


Fazia troça


Com traços




Parece piada


Mas dizem que é pura verdade


A primeira palavra que disse foi:


"Lápis"




E zapt!


Não parou mais


Desenhava as touradas da Espanha


Cavalos, bonecas


Menino levado




Cresceu,


Foi para Paris


Impressionado com a cidade,


Registrou tudo que viu




Mas um grande amigo partiu


E com ele as cores


Sobrou o azul


Quadros de dores




Logo conheceu uma moça


Na tela branca


A paixão vermelha


Corou de rosa sua paleta




Mas a fase mais engraçada


Foi a cubista


Picasso embaralhou as formas


Brincou com as normas




Cubismo


Mosaico


Caquinhos


Pedaços




Na época


Foi aquele estardalhaço


Desenhou perfil de frente


Pôs bumbum no lugar de braços


Fez tudo diferente




Arte não é fotografia


Que registra o modelo real


Tal e qual




Na tela


A imagem que fica


É Picasso e


Não tem nada igual.




Adriana Abujamra.

domingo, 5 de julho de 2009

TUDO NO MUNDO COMEÇOU COM UM SIM

"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através do meu trabalho. Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável."
Clarice Lispector em A Hora da Estrela.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

SÚPLICA

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...

Vem para mim,amor...
Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...

Florbela Espanca

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A PEQUENA MORTE


Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.


Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços.

domingo, 7 de junho de 2009

Canto II

"No mar tanta tormenta
e tanto dano,
Tantas vezes a morte
apercebida;
Na terra, tanta guerra,
tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se
um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e
se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da
terra tão pequeno?"
Luís Vaz de Camões. Os Lusíadas.